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NOTA DE REPÚDIO – Caso de Racismo obstétrico Maternidade Climério de Oliveira, em Salvador

Repudiamos veementemente o caso ocorrido na Maternidade Climério de Oliveira, em Salvador, no qual uma mulher negra, com 40 semanas de gestação, teve sua internação condicionada à retirada de cabelo sintético, em pleno contexto de trabalho de parto.

Segundo o relato, a paciente foi informada pela profissional responsável de que só seria internada se retirasse o cabelo. Diante da imposição, ela e sua mãe precisaram se deslocar para a área externa da unidade e realizar a retirada de forma improvisada, utilizando um cartão, em meio à dor, às contrações, ao medo e à vulnerabilidade extrema que marcam esse momento.

Essa prática não possui respaldo científico. Não existem evidências que indiquem risco do uso de cabelo sintético no parto ou em procedimentos obstétricos. O que se observa é a reprodução de condutas arbitrárias, sustentadas por racismo institucional e por uma cultura hospitalar que insiste em controlar corpos negros, especialmente os corpos de mulheres negras.

O racismo obstétrico não se restringe a práticas físicas explícitas, como episiotomias desnecessárias, exames invasivos ou a negação de analgesia. Ele opera também de maneira estrutural e cotidiana, inscrito nas rotinas institucionais, nos olhares, nas decisões e nas formas de tratamento dirigidas às mulheres negras.

Manifesta-se na forma como o sistema de saúde enxerga e julga essa mulher;no modo como sua dor é deslegitimada e sua palavra é constantemente colocada em dúvida; na naturalização da violência no momento mais sensível, íntimo e vulnerável de sua vida; e na negação de sua dignidade, identidade, autonomia corporal e direito a um cuidado respeitoso.

Trata-se de um conjunto de práticas que não apenas violam direitos, mas reafirmam hierarquias raciais, produzindo sofrimento físico, emocional e simbólico, sob o falso discurso de cuidado, segurança ou protocolo técnico.

Exigir que uma mulher negra em trabalho de parto retire “trança por trança” não é cuidado, não é segurança, não é ciência. É racismo!!!

O fato de essa conduta não ser unanimidade nos protocolos de parto em Salvador demonstra que não se trata de um imperativo técnico, mas endossada pelo funcionamento do racismo institucional.

Enquanto protocolos, práticas e culturas institucionais não forem revistos à luz da justiça reprodutiva e do Bem Viver, nossos corpos continuarão sendo vigiados, controlados e violentados dentro dos serviços de saúde.

À mulher que vivenciou essa situação expressamos nossa solidariedade, respeito e reconhecimento do racismo vivenciado.

Racismo obstétrico é violência.
E não aceitaremos.

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